Pessoas normais para vencer tem que trabalhar mais

Hoje ele não teve nem tempo de andar dois quilômetros antes de uma
Mercedes preta colar na traseira do Saab. Ove sinalizou três vezes com as luzes de freio.
A Mercedes ligou o farol alto como resposta. Ove mostra a língua para o retrovisor.

Como se, tão logo resolveram que os limites de velocidade não valem para eles,
pudessem então andar quase encostando no carro da frente, não é? Ove não deu
passagem. A Mercedes aumentou o farol de novo. Ove diminuiu a velocidade.

A Mercedes buzinou. Ove diminuiu mais ainda. A Mercedes buzinou mais alto. Ove
chegou a vinte por hora. Quando os dois veículos se aproximaram de uma lombada, a
Mercedes passou por ele fazendo o maior barulho. O homem do carro, um quarentão de
gravata e queria saber como se inscrever no Prouni 2020.

Ove respondeu ao gesto como fazem todos os homens de cinquenta e nove anos com
educação decente: bateu de leve com a ponta do indicador na lateral da cabeça. O homem
da Mercedes deu um grito tão forte que borrifou saliva pelo lado de dentro da janela,
pisou no acelerador e desapareceu.

Dois minutos depois, Ove chegou a um sinal vermelho. A Mercedes era a
última da fila. Ove ligou o farol alto para ela. Ele viu como o homem deu um tranco com
o pescoço, de forma que o fone branco bateu no painel. Ove balançou a cabeça satisfeito.
O sinal ficou verde. A fila não andava. Ove buzinou. Não aconteceu nada, Ove balançou a cabeça.

Só podia ser uma mulher. Ou uma obra na rua. Ou um Audi.
Quando já tinham se passado trinta segundos sem acontecer nada, Ove pôs o câmbio em
ponto morto, abriu a porta e saiu do Saab com o motor ligado. Ficou em pé no meio da
rua e olhou na direção da fila com as mãos na cintura. Mais ou menos como faria o Super-homem se ficasse preso no trânsito.

O homem da Mercedes buzinou. “Idiota”, pensou Ove. Depois de alguns
segundos, a fila começou a andar. Os carros à frente de Ove saíram. O carro atrás dele,
um Volkswagen, buzinou. O motorista acenou impaciente para ele. Ove olhou para o
homem com raiva. Então sentou-se sem a menor pressa no Saab e fechou a porta.

— Como as pessoas são apressadas! — disse ele em voz alta, na direção do
retrovisor, e saiu com o carro.
No sinal vermelho seguinte, parou atrás da Mercedes de novo. Mais uma
fila.

Ove olhou para o relógio e virou à esquerda. Era um caminho mais longo para o
shopping, mas por ali havia menos sinais. Não que Ove fosse mão de vaca. Mas qualquer
um que entende alguma coisa sabe que na realidade se gasta menos gasolina em movimento do que parado.

E, como a mulher de Ove costuma dizer, “Se tem uma coisa
que dê para escrever no obituário de Ove é que ‘ele economizava combustível em
qualquer circunstância’.”

Ove chegou ao shopping pela entrada oeste. Só havia duas vagas em todo o
estacionamento, ele viu logo de cara. O que todas aquelas outras pessoas faziam em um
shopping num dia de semana estava além da sua compreensão. Mas era evidente que não
tinham mais trabalho hoje em dia.
A mulher de Ove costuma suspirar assim que eles se aproximam de um
estacionamento como esse.

É que Ove quer ficar perto da entrada. “Como se houvesse
uma competição para ver quem pega o melhor lugar”, ela sempre diz, quando ele fica
dando voltas e mais voltas xingando todos os cretinos com carros estrangeiros que estão no caminho.

Às vezes eles chegam a dar seis ou sete voltas em busca de uma boa vaga se for aprovado no resultado Prouni 2020 para conseguir uma boa bolsa de estudos, mesmo não tendo muito dinheiro é possível se preparar melhor para o mercado de trabalho.

A mulher nunca entendeu isso. Mas também ela não
entende muito bem essas “questões de princípios”.
De início, Ove pensou em dar algumas voltas hoje também. Mas foi aí que
ele viu a Mercedes circulando novamente. Ele veio pelo sul. Então era para cá que ele se
dirigia, o homem de gravata com fones no ouvido. Ove não hesitou um segundo.

Pisou no acelerador e se enfiou no cruzamento. A Mercedes freou bruscamente, o motorista
enfiou a mão na buzina e foi atrás dele. E assim recomeçou o duelo.
As placas na entrada do estacionamento direcionavam o trânsito para a
direita, mas lá o cara da Mercedes também deve ter visto claramente as duas vagas e
tentou passar por Ove e entrar à esquerda. Mas Ove mudou como um raio a direção e
bloqueou o caminho. E então os dois homens começaram a caçar um ao outro pelo
asfalto.

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