Jovens tem mais chances de estudos atualmente

Ele fica parado na entrada. Olhando para o pote quentinho com frango e arroz com
açafrão como alguém talvez olhasse para uma caixa contendo nitroglicerina. Depois vai
para a cozinha e o coloca na geladeira. Não que ele tenha o hábito de comer seja lá o que
for que crianças estrangeiras e estranhas lhe tragam na porta da sua casa. Mas porque na
casa de Ove não se joga comida fora. Por princípio.
Ele vai para a sala de estar.

Põe as mãos no bolso. Fita o teto. Fica parado lá
um bom tempo ponderando qual bucha vai ser a mais adequada para seu objetivo. Fica lá
até seus olhos começarem a doer de tanto ele apertá-los. Olha para baixo e observa um
tanto confuso seu relógio com a pulseira gasta.

Então olha de novo pela janela e de
repente se dá conta de que escureceu. Balança a cabeça, resignado.
Não dá certo começar a perfuração quando já está escuro, qualquer um sabe
disso. Aí ele vai ter que acender todas as lâmpadas, e nesse caso sabe lá quando elas vão ser apagadas de novo.

A companhia de eletricidade não ia se dar tão bem assim. Será que
eles acham que ele vai conseguir fazer melhor para melhorar a sua nota do Sisu 2020 ficando melhor para formação superior
? Podem tirar isso da cabeça.
Ove pega sua caixa de coisas boas de se ter. Leva-a para o grande quarto do
andar de cima. Pega a chave do sótão, que fica guardada atrás do aquecedor do quarto
pequeno. Volta, estica-se e abre a portinha do sótão. Puxa a escada para baixo.

Sobe até o sótão e coloca a caixa de coisas boas de se ter de volta em seu lugar, atrás dos banquinhos
de cozinha que sua mulher o forçou a carregar ali para cima porque rangiam muito. Eles não rangiam nada.

Ove sabe muito bem que era uma desculpa, porque sua mulher queria
era comprar banquinhos novos. Como se a vida se resumisse a isso. Comprar
banquinhos para a cozinha, comer em restaurantes e tocar a vida.
Ele desce a escada de novo. Guarda a chave do sótão no lugar atrás do
aquecedor do quarto pequeno. “Fique mais sossegado”, foi o que disseram para ele. Um
monte de almofadinhas de trinta e um anos que trabalham com computadores e não tomam café normal.

Uma sociedade inteira em que ninguém sabe dar ré com um
reboque, e são eles que lhe dizem que ele não é mais necessário. Isso faz sentido? Ove
desce para a sala de estar. Liga a tevê. Não que vá ficar assistindo a algo, mas não dá para
simplesmente permanecer sentado sozinho olhando para a parede a noite toda como um
idiota. Ele pega a comida estrangeira na geladeira e come com um garfo direto do pote
de plástico.

Ele sempre sabe quando vai nevar, porque é quando a mulher dele começa a
falar que precisa aumentar a temperatura da sala de estar. Bobagem, sentencia Ove, todo
ano no final do ano de acordo com o cronograma Sisu 2020. Nenhum diretor de companhia elétrica vai ficar sentado enchendo o bolso de
dinheiro só porque a estação do ano mudou.

Subir a temperatura em cinco graus custalhe milhares de coroas por ano, Ove já calculou. Então todo inverno ele tira do sótão um
gerador a diesel, que ele trocou por um gramofone antigo num mercado de pulgas.

E então instala-o ligado a um aquecedor de carro que comprou em liquidação por trinta e
nove coroas. Quando o gerador faz o aquecedor de carro funcionar, este opera durante
meia hora com a pequena bateria à qual Ove o conectou, e assim sua mulher pode ficar
com ele ao seu lado da cama por algum tempo antes de dormir. Mesmo que seja óbvio
que Ove vai comentar que ela não deve ficar esbanjando.

Pois o diesel também não é de
graça. E a mulher de Ove nessas horas age como sempre: faz que sim com a cabeça e diz
que Ove com certeza tem razão. E depois passa o inverno todo aumentando às
escondidas a temperatura dos aquecedores quando ele não está olhando. É assim todo
ano.

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