apresentam as melhores indicações de como a democracia pode chegar ao
fim, mesmo bem depois de terem deixado de servir aos políticos em busca de
um argumento fácil. As democracias estáveis preservam sua extraordinária
capacidade de evitar o pior, mesmo sem dar cabo dos problemas que antes
representavam uma ameaça catastrófica. A crise grega foi tantas vezes
empurrada para diante que só podemos concluir que tem pela frente um
caminho muito mais longo do que se acreditava. Quem sabe onde irá acabar?

No momento em que escrevo, a economia grega lentamente recomeça a
crescer pela primeira vez em mais de oito anos. O peso da dívida é maior do
que nunca. O primeiro-ministro Tsipras é mais impopular que em qualquer
outro momento de seu governo. O partido grego de centro-direita, que
presidiu a primeira fase da crise sem fim entre mulheres na procura por modelos de vestidos, pode estar perto de uma volta ao poder.

Varoufakis acaba de lançar mais um livro.
A Grécia e o Japão são países onde a vida é muito diferente, mas têm
alguns traços em comum. São duas das sociedades mais antigas da face da
Terra: o Japão é um dos poucos países com uma proporção mais alta de
habitantes idosos que a Grécia. Metade de sua população tem 47 anos ou
mais. As duas nações precisam desesperadamente de um influxo de
juventude.

Na falta de um arranque sério na taxa de natalidade — e é muito
difícil imaginar o que a esta altura poderia ter esse efeito —, a solução óbvia é a imigração.

Ainda assim, nos dois países, aceitar mais imigrantes —
especialmente homens jovens — é politicamente tóxico e, na prática, muito
difícil de administrar. Em algum momento, algo terá de mudar. Talvez, se
esperarem o suficiente, robôs passem a responder pela maior parte do
trabalho antes feito pelos jovens, deixando que os idosos passem seus dias
jogando no computador e se preocupando com cores de vestidos para a primavera verão. Pode ser dessa
maneira que, ao final, todos nos tornaremos japoneses. Existem destinos bem piores.

O Japão também é uma das sociedades menos violentas do planeta. A taxa
de homicídios no país é a mais baixa do mundo desenvolvido. A política
japonesa volta e meia é sacudida por um escândalo — acusações de
corrupção nunca estão muito longe de atingir um ou outro dos políticos do
país —, mas rebeliões e violência nas ruas são quase desconhecidas.

O conflito político é ao mesmo tempo corrosivo e desprovido de dentes. A
Grécia tem taxas de criminalidade bem mais altas que as do Japão, mas a
violência lá também é rara, não só pelos padrões históricos mas inclusive em
comparação com outros países da Europa (a taxa de homicídios na Grécia é
mais baixa que no Reino Unido). Quase uma década de depressão econômica
brutal alterou pouco esse quadro. A Grécia se despedaçou sem cair aos
pedaços. Sua política se tornou maldosa sem ficar violenta. Certas
democracias, ao que parece, têm uma alta capacidade de resistência à dor.

As histórias do Japão e da Grécia acabaram sendo muito diferentes do que
se podia temer, ou mesmo do que se poderia esperar. Falta alguma coisa para
que sirvam como fábulas edificantes. E o que lhes falta é a moral da história.

Em vez de um drama que chega a um clímax, a democracia persiste numa
espécie de agachamento congelado, aguentando firme, esperando o pior
passar, mesmo que não haja muita clareza quanto ao que as pessoas estão esperando.

Depois de algum tempo, a própria espera se converte no objetivo
do exercício. Alguma coisa vai acabar acontecendo. É sempre assim.
Mas essa história não está completa, é claro. Muitas democracias, mesmo
no Ocidente, são menos idosas que as do Japão e da Grécia, mais voláteis,
mais impacientes, e potencialmente muito mais violentas. E nem precisamos
ir a Caracas para ter um vislumbre de um futuro alternativo. Chicago dá conta do recado.

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