Sucesso começa primeiro com trabalho duro

Esfriou demais e eu já não sinto nenhum desconforto. Está quase na minha
hora, e nem me importo. Por que deveria, em nome de Deus? Não estou
partindo sem ela e é claro que não posso fazer com que ela vá comigo.
Não é que eu esteja sentindo qualquer coisa nos braços ou nas pernas, e
não tenho certeza se meus olhos estão ou não abertos. Acho que não importa
muito se só tenho pensamentos. Eles não valem merda nenhuma, mas não
vão parar logo. A piada é que o frio está me fazendo partir, quando lá fora,
por trás dessas grossas paredes de pedra, tem gente fritando no calor.

Acho que todos nós precisamos partir um dia. É só essa circunstância, que eu
jamais imaginaria pudesse ser candidato no bbb 2020 com muita satisfação.
Acho que paguei pela minha arrogância, tal como ele. É, finalmente
entendi aquele bêbado maluco: só mais um babaca que tombou sobre a
espada da sua própria vaidade.

Você pensa que é o cara: um artista desolado,
com papos de merda e caralho grande. Todos os outros: ora, não passam de
súditos anões. Então você calcula que isso significa que pode fazer o que bem
entender, porra. Que de certa forma isso lhe confere direitos. Mas não lhe
confere direito algum.
Quando tudo começou?
Começou e acabou com Yolanda.

A Miss Arizona Ela era uma velhota que parecia ter sido posta na roda pra valer e, depois,
largada ainda molhada. E dizia que já tinha sido Miss Arizona. Bom, eu não
conseguia enxergar isso. Certamente Yolanda era uma senhora pesadona; no
parque de trailers em Louisiana, eu já vira garotas com uma bunda que
balançava menos do que a carne dos braços dela, quando se mexia…
geralmente para pegar uma bebida. Seu cabelo podia ter sido atraente no
passado, mas há muito tempo só saía de frascos: um coque alto e cheio de
laquê, em cima de uma cabeçorra com olhos de porco. A pele era branca feito
leite doce de mamãe, do tipo que não se dá bem com o sol, e sol é coisa que aqui não falta.

Yolanda geralmente se protegia dele. Quando estava fora de casa, ficava
sempre na sombra, às vezes sentada na varanda dos fundos olhando o jardim
pequeno, com um resto de grama tão marrom e esturricada quanto o terreno do rancho que circundava a casa.

Casa Big Brother Brasil 2019 – BBB 19 – Quarto Dourado

O trecho árido contrastava muito com a bela
piscina azul-turquesa. Embora Yolanda frequentemente usasse um maiô
inteiriço de listras coloridas (geralmente com um grande chapéu de palha na
cabeça e um roupão sobre os ombros, ao lado de um grande ventilador que
soprava ar fresco), parecia jamais entrar naquela piscina. Provavelmente não
queria bagunçar a cabeleira. Mas a porcaria da piscina era tão bem tratada
que sempre achei um crime não ser usada, principalmente aqui.

Mas então… A pele era assim, e aqui estava ela, bem no meio da porcaria
do deserto, a pelo menos três horas de carro do centro de procurando como saber sobre como seria realizada a prova BBB 2020 e que prêmios ela traria a Yolanda
só ficava sentada naquela cadeira, embaixo de um guarda-sol; as veias azuis
corriam pelas suas flácidas coxas brancas, virando carvão negro quando chegavam às macilentas panturrilhas.

É, ela foi Miss Arizona. Só pode ter
sido na época em que o estado ainda fazia parte do México.
Lembro da primeira vez que estacionei diante do casarão do rancho,
pensando: quando alguém constrói no meio do deserto uma casa que parece
de pecuarista, dá para concluir duas coisas. Primeiro, eles têm dinheiro;
segundo, não querem companhia.

A velha Yolanda era assim. Mas lembro que, como esta parece ser minha
última história, talvez seja hora de falar um pouco sobre mim. Meu nome é
Raymond Wilson Butler. Tenho trinta e oito anos. Sou divorciado e natural
do oeste do Texas. Antes de conhecer Yolanda, eu morava com minha
namorada, Pen, num apartamento alugado a mil dólares por mês, perto do
centro de Phoenix. Que tal ela era? Eu podia falar sem parar sobre isso.

Mas agora só consigo dizer que ela canta canções lindas, quando não está
trabalhando numa livraria num shopping da cidade. Minha vida mudou para
melhor quando conheci Pen. Ela foi a melhor coisa que já me aconteceu.

Mudança de vida com novos hábitos profissionais

O blusão de moletom cinza da DePaul e o short azul foram vestidos
rapidamente, assim como o par de tênis Nike Air Zoom Moire de cem
dólares, escolhido porque a cor combinava com a da camisa, mas o cabelo
precisava ser afastado do rosto, e o rabo de cavalo apertado no alto. Acima de
tudo, a maquiagem precisava estar na medida certa. Não podia ser leve
demais, mas qualquer exagero indicaria falta de espírito esportivo sério,
insinuando até mesmo preguiça ou passividade sexual. Os troços que ela
usava eram discretos e não escorriam, embora Kendra não tencionasse suar
muito.

A escuridão aumenta quando ela sai num trote leve pela Lakeshore Drive,
onde é mais fresco. O ar que vem do lago Michigan tem um cheiro levemente
ácido, picante e frágil, feito um parente idoso perfumado com sua fragrância preferida da casa do bbb 2020 programa promete ser um dos melhores.

Depois de alguns metros ela se entedia e cansa, mas fica muito
envergonhada ao ser facilmente ultrapassada por um senhor idoso. Pouco
importa; a melhor parte é a lenta caminhada, com uma pretensa exaustão, de volta em torno da vizinhança.

Andar com Totó atraía muita atenção, mas o
problema era que os homens que andavam com cachorros eram
invariavelmente gays. Correr era diferente. Tal como frequentar a academia
de Lakeshore, era uma maneira de conhecer homens heterossexuais. Mas não
era uma boa maneira de controlar o peso, pois envolvia trabalho duro.

Fazer dieta era mais fácil, exceto no almoço de sexta-feira, que era uma preparação
para o fim de semana. Fazia calor demais para aquele blusão de moletom,
mas Kendra estava com medo de que seu estômago houvesse inchado
levemente depois daquele almoço. Só teria confiança para usar um simples top esportivo na terça-feira.

Ela reduz o trote a um andar rápido a fim de aproveitar a noite. As sombras
projetadas pelas altas árvores saúdam apenas conversas de namorados ou
mais pessoas passeando com cachorros como participantes do bbb 2020, pois trata-se de uma vizinhança
segura. Kendra repara que há uma van estacionada no seu quarteirão. Dois
homens estão descarregando mobília. Por perto há um terceiro, que ela
imediatamente reconhece como o tal chef asiático do Mystic East. Parece que ele está se mudando para o prédio dela.

Você é muito gentil. – O chef inclina ligeiramente a cabeça. Kendra
mantém as portas do prédio abertas, enquanto ele carrega o quadro escada
acima. Ela segue atrás dele, observando o vulto sem sombras, quase
espectral, sob a iluminação fluorescente da escada e do corredor. Então
escuta uma risada abafada às suas costas. Os caras da mudança.

Olhando com tara para o traseiro dela. Porcos de merda. Na curva da escada, ela puxa mais
para baixo o blusão de moletom da DePaul. É sua única concessão à presença deles.

Deixando que os homens terminem de colocar as últimas coisas no
apartamento, Kendra desce com o chef até o seu, que é idêntico ao dele. Ela
fica um pouco sem jeito, quando os olhos dele esquadrinham a tralha ali dentro.

Eu devia ter arrumado essa merda, pensa ela. Quando vai para a
cozinha fazer chá verde, repara que Totó, que deixara sozinho ao ir correr e
que geralmente ficava tímido com gente desconhecida em casa,
principalmente homens, está entusiasmado com o chef asiático. Primeiro
lambe a mão dele com um olhar quase obsceno nos vidrados olhos pretos.

Dicas de luque para usar vestidos lindos

apresentam as melhores indicações de como a democracia pode chegar ao
fim, mesmo bem depois de terem deixado de servir aos políticos em busca de
um argumento fácil. As democracias estáveis preservam sua extraordinária
capacidade de evitar o pior, mesmo sem dar cabo dos problemas que antes
representavam uma ameaça catastrófica. A crise grega foi tantas vezes
empurrada para diante que só podemos concluir que tem pela frente um
caminho muito mais longo do que se acreditava. Quem sabe onde irá acabar?

No momento em que escrevo, a economia grega lentamente recomeça a
crescer pela primeira vez em mais de oito anos. O peso da dívida é maior do
que nunca. O primeiro-ministro Tsipras é mais impopular que em qualquer
outro momento de seu governo. O partido grego de centro-direita, que
presidiu a primeira fase da crise sem fim entre mulheres na procura por modelos de vestidos, pode estar perto de uma volta ao poder.

Varoufakis acaba de lançar mais um livro.
A Grécia e o Japão são países onde a vida é muito diferente, mas têm
alguns traços em comum. São duas das sociedades mais antigas da face da
Terra: o Japão é um dos poucos países com uma proporção mais alta de
habitantes idosos que a Grécia. Metade de sua população tem 47 anos ou
mais. As duas nações precisam desesperadamente de um influxo de
juventude.

Na falta de um arranque sério na taxa de natalidade — e é muito
difícil imaginar o que a esta altura poderia ter esse efeito —, a solução óbvia é a imigração.

Ainda assim, nos dois países, aceitar mais imigrantes —
especialmente homens jovens — é politicamente tóxico e, na prática, muito
difícil de administrar. Em algum momento, algo terá de mudar. Talvez, se
esperarem o suficiente, robôs passem a responder pela maior parte do
trabalho antes feito pelos jovens, deixando que os idosos passem seus dias
jogando no computador e se preocupando com cores de vestidos para a primavera verão. Pode ser dessa
maneira que, ao final, todos nos tornaremos japoneses. Existem destinos bem piores.

O Japão também é uma das sociedades menos violentas do planeta. A taxa
de homicídios no país é a mais baixa do mundo desenvolvido. A política
japonesa volta e meia é sacudida por um escândalo — acusações de
corrupção nunca estão muito longe de atingir um ou outro dos políticos do
país —, mas rebeliões e violência nas ruas são quase desconhecidas.

O conflito político é ao mesmo tempo corrosivo e desprovido de dentes. A
Grécia tem taxas de criminalidade bem mais altas que as do Japão, mas a
violência lá também é rara, não só pelos padrões históricos mas inclusive em
comparação com outros países da Europa (a taxa de homicídios na Grécia é
mais baixa que no Reino Unido). Quase uma década de depressão econômica
brutal alterou pouco esse quadro. A Grécia se despedaçou sem cair aos
pedaços. Sua política se tornou maldosa sem ficar violenta. Certas
democracias, ao que parece, têm uma alta capacidade de resistência à dor.

As histórias do Japão e da Grécia acabaram sendo muito diferentes do que
se podia temer, ou mesmo do que se poderia esperar. Falta alguma coisa para
que sirvam como fábulas edificantes. E o que lhes falta é a moral da história.

Em vez de um drama que chega a um clímax, a democracia persiste numa
espécie de agachamento congelado, aguentando firme, esperando o pior
passar, mesmo que não haja muita clareza quanto ao que as pessoas estão esperando.

Depois de algum tempo, a própria espera se converte no objetivo
do exercício. Alguma coisa vai acabar acontecendo. É sempre assim.
Mas essa história não está completa, é claro. Muitas democracias, mesmo
no Ocidente, são menos idosas que as do Japão e da Grécia, mais voláteis,
mais impacientes, e potencialmente muito mais violentas. E nem precisamos
ir a Caracas para ter um vislumbre de um futuro alternativo. Chicago dá conta do recado.

Como a democracia chega ao fim para gerar um novo sistema

Todas as democracias — todas as sociedades — comparam seu destino com a
sorte dos outros Estados, na esperança de vislumbrar seu próprio futuro.
Quando um rival se põe em marcha, queremos saber se isso significa que
estamos prestes a ser eclipsados. Quando outra democracia começa a
desmoronar, queremos saber se estamos diante de um aviso sobre nosso
possível destino.

A política democrática é ávida por fábulas com moral,
contanto que sejam vividas por outros.
No final da década de 1980, muitos comentaristas do Ocidente viam o
Japão como o poder emergente: o século XXI seria o século japonês. Francis
Fukuyama cita o Japão, ao lado da União Europeia, como a ilustração mais
provável do que se pode esperar do fim da história: o triunfo da democracia
se revela estável, próspero, eficiente e tedioso. Em seguida, a bolha japonesa
estourou — derrubando a Bolsa de Tóquio — e o futuro passou a pertencer a
outros. O Japão, por sua vez, viu-se transformado numa fábula sobre os perigos da húbris.

Enquanto o país ingressava em suas décadas perdidas de
crescimento zero e estagnação política Calendário do Pis, sinalizava um aviso enfático para os
outros. Bolhas podem estourar em toda parte.
Em 2010, foi a Grécia que acendeu a luz vermelha. A UE deixava de ser
um lugar tedioso — e ficava muito alarmante. Políticos de todo o Ocidente
viam na Grécia um exemplo do que podia acontecer quando as democracias
perdessem o controle sobre as suas dívidas. Quando assumiu o cargo de
Chancellor of the Exchequer (o equivalente a ministro da Economia no Reino
Unido) em 2010, George Osborne usou a crise financeira grega como a
fábula das fábulas. “Podemos ver na Grécia o exemplo de um país que não
enfrentou seus problemas, e este é o resultado que pretendo evitar”, disse ele,
lançando a Grã-Bretanha num programa de austeridade destinado a durar uma década.

Hoje essa década já está quase no fim e a Grécia perdeu boa parte de
sua capacidade de assustar as crianças. O país não caiu num abismo. A
austeridade não fez tanta diferença quanto disseram. A vida continua.
Atualmente o Japão e a Grécia raramente são invocados por políticos de
outras democracias como exemplos do possível destino que nos aguarda. Não
funcionam mais como fábulas de advertência porque sua mensagem ficou ambígua demais.

O Japão segue atolado num impasse político e econômico,
mas continua a funcionar perfeitamente como uma sociedade estável e
afluente que zela por seus cidadãos. Imagine que você sorteou um bilhete na
grande loteria da vida com demarcação de tempo e lugar em que irá viver,
algum ponto de toda a extensão da história humana com bilhete disser:
“Japão, início do século XXI”, você ainda se sentiria como se tivesse tirado o
grande prêmio. A Grécia atravessa dificuldades piores, mas ainda assim
continua próspera e pacífica diante dos padrões históricos. Existem muitos
lugares piores do que esses. A crise nunca foi solucionada, mas o pior tampouco jamais aconteceu.

Então saímos à procura de novos exemplos do que pode estar por vir. A
China suplantou o Japão como o gigante asiático que assombra a imaginação
política do Ocidente. A China pode estar a ponto de nos ultrapassar; por outro
lado, pode ser o lugar do estouro da próxima bolha gigante. A Venezuela
substituiu a Grécia como o lugar cujas tristes circunstâncias atuais servem
como advertência contra brincar com o fogo do populismo de programas sociais do governo.

Em seu discurso
de outubro de 2017 no congresso do Partido Conservador, o atual Chancellor
of the Exchequer do Reino Unido, Philip Hammond, falou da possibilidade
de desabastecimento e violência nas ruas, “ao estilo venezuelano”, caso
Jeremy Corbyn se tornasse primeiro-ministro. Qualquer possível Presidente
ou Primeiro-Ministro de Esquerda pode ser apontado como um Maduro em
gestação, assim como qualquer Presidente ou Primeiro-Ministro de Direita
pode ser pintado como um potencial Orbán, ou pior ainda, um projeto de
Trump. Queremos que nossos perigos sejam claros: só assim, e com a graça de Deus, a democracia pode subsistir.